Vai um orgasmo aí?

agosto 2, 2008

 

O Dia mundial de uma coisa muito prazerosa…Mas que nem todo mundo sabe o que é.

 

            Uma das histórias da antiguidade clássica que sempre me surpreendeu foi a vida de Calígula, o ditador que escandalizou o império romano. Banhado até a raiz dos cabelos num mundo de sangue e devassidão, sempre me relembro com estupor a sua decisão de nomear seu cavalo Bucéfalo como ministro. Decisão essa baseada no fato de ser a criatura eqüina – palavras dele! – o animal mais bem dotado que já havia visto até então. E mais: houve um momento de sua gestão à frente dos romanos em que confessou publicamente que somente o belo garanhão seria capaz de fazê-lo atingir o mais alto grau de satisfação no que se referem às relações carnais: o orgasmo. Por que estou me referindo a esse caso inusitado? Primeiro, por volta e meia ter me deixado intrigar por essa sensação humana (atingida por poucos ao longo da vida, é fato!) de atingir o mais alto degrau de excitação. E segundo, por ler numa coluna bastante inovadora uma interessante matéria sobre o dia mundial do orgasmo. Isso mesmo, meus amigos! Acreditem se quiser… Uma série de eventos envolvendo o tema comemora a data no Rio de Janeiro – segundo relato na coluna Gente Boa, do sempre competente e hilário Joaquim Ferreira dos Santos – e praticantes das mais diferentes profissões e áreas de atuação deixam registradas suas opiniões, umas picantes em seu conteúdo narrativo, outras polêmicas por seu desabafo arrojado e corajoso.

 

 

            As opiniões (que mais parecem confissões, pela maneira intimista como são dadas) divergem a todo o momento, criando uma espécie de contracampo existencial entre pessoas que defendem o ato (ou o fingimento do) e aqueles que o recriminam, por considerá-lo subversivo e amoral. O psicanalista Luiz Alberto Py, mente aberta que só, defende a decisão de alguns fingirem a consumação do ato e o status de prazer proporcionado pelo clímax por acreditar “não ser de todo condenável (…) mentir faz parte da vida; não é pecado”. Decisão essa sumariamente condenada pela psiquiatra e sexóloga Rita Jardim que, em duas palavras, resume esse tipo de situação: “acho triste”. Há aqueles mais ousados que confessam a prática constante com obtenção total do prazer atingido – como é o caso da Daspu Jane Eloy, que arrebata: “quando gozo me sinto mulher, o corpo fica mole, dá soninho, vontade de dormir agarradinho” – bem como, por outro lado, os que nunca conseguiram alcançar o dito cujo, como assume a atriz Lady Francisco que, em cinco anos de casamento e dois filhos depois, nunca sentiu nada sequer parecido.

 

 

 

            E os que ganham a vida incentivando a prática ou pesquisando sobre ela? Acha que esqueceram deles? Não mesmo! Estão lá também. A stripper Alice Gouveia é a rainha da Festa do Swinge no Hotel Ibiza, no Centro da cidade carioca, com direito a “hora do apagão” e tudo (para quem não conhece o termo, é quando as luzes se apagam em pleno salão e rolam mãos bobas pra tudo quanto é lado). Já Regina Racco, professora, vê aumentar a procura por suas aulas de ginástica íntima entre as mulheres. Outra praticante voraz, Suzana Leal, dona de sexy clube, defende ferrenhamente a prática do pomparismo, por acreditar que “a técnica, além de fortalecer os músculos da vagina, faz com que o organismo produza hormônios que aumentam a libido”. E, finalmente, o meu preferido entre confidentes, o compositor Mu Che Babi, nostálgico pesquisador do pornotube, vira as noites caçando as expressões mais corriqueiras utilizadas na hora H, como por exemplo, o método à la flanelinha (“vai, vai, pra direita, vira pra esquerda, aí, desfaz, deixa solto, aê…ahhhh!!!!”) e as preferidas do mundo animal (cachorra, potranca, piranha, cadela e outros animais de baixo calão).

 

 

            Entendeu agora o porquê da minha menção no início desse artigo ao notório Calígula? Mais do que isso: lembrei-me do clássico filme homônimo dirigido pelo fotógrafo da Revista Playboy Bob Guccione e interpretado pelo ator Malcolm McDowell, na apoteose final de sua irregular carreira (pois ele nunca mais conseguiu um outro grande papel em toda a sua vida hollywoodiana). O quê? Querem saber a minha opinião sobre o orgasmo? Como opinar sobre algo que até hoje não atingi? É, meus caros leitores, esse pobre colunista que vos escreve – sem nenhuma vergonha de admitir – também aumenta o coro daqueles que não alcançaram a glória da exaltação sexual. Infelizmente. Será isso um crime? Diriam sábios autores do passado ser esse um bom sinal, acima de tudo. Pois, acreditam eles, é na idade madura que as grandes realizações se dão de forma duradoura e inesquecível. Enquanto aguardo solenemente a minha apoteose final, fico pensando encostado em minha poltrona se não na imponência de Bucéfalo, animal sortudo, pelo menos na imensa felicidade daqueles que diferente de mim atingiram o tão cobiçado patamar perante os deuses da orgia e do divertimento.

 

 

Foto: http://www.bencksclub.blogger.com.br/casal2.jpg

 

 

 

                 

           

 

 

O que é música hoje e como os artistas farão para ganhar dinheiro daqui pra frente.

julho 30, 2008

 

Pensando a questão dos direitos autorais e a indústria fonográfica brasileira: o que é (não é) música nesse país?

 

            Desde que decidi montar esse blog, um amigo meu fanático por música – mas digo fanático mesmo, no sentido de que quando gosta de uma banda e/ou cantor específico vai a quase toda a turnê, compra todos os álbuns, camisas e copos e revistas e sabe lá Deus mais o quê que tenha estampado o nome daquele (ou daqueles) indivíduos que sobem ao palco para lotar estádios e casas de show – exige que eu fale a respeito da questão dos direitos autorais e da atual situação da indústria fonográfica. Grande amigo que sou (e nessas horas não custa nada dar uma força para os parceiros que me conhecem desde pequeno) e também um admirador da boa música decido escrever sobre o assunto e me recordo de duas matérias recentes publicadas em dois dos jornais mais vendidos na cidade.

 

            A primeira matéria chama-se “Que país é este que quer ouvir uma fita cassete?” e fala sobre a recuperação de uma gravação precária feita pelo vocalista da banda Legião Urbana, o sempre saudoso Renato Russo, que apesar de importante por seu inestimável caráter antropológico, traz também severas críticas em seu bojo por conta da má qualidade sonora das canções e, destaque louvável, a falta de material inédito do compositor entre as canções. Os críticos musicais convidados para comentar a matéria, dividem-se entre opiniões como “músicas mofadas de apartamento” (comentário de Bráulio Lorentz), “arruinaram a memória de suas canções” (Nelson Gobbi) e “o poeta permanece em meio à mediocridade” (Ricardo Schott). Em fim, uma triste tentativa mercadológica de tocar os corações nostálgicos de uma legião de fãs, órfãs do sábio trovador solitário e que desde seu falecimento não encontraram outro ídolo que o substituísse.

 

            Já no segundo artigo, chamado “Saída pelo palco”, é feita uma grande reflexão ao futuro do meio artístico em tempos de downloads de faixas pela internet aliada à agressiva pirataria que a cada dia alcança mais a mais adeptos, levando os cantores e compositores a verem nos shows ao vivo e na gravação de DVDs a salvação de suas carreiras. E não pensem, caros leitores, que grandes nomes da MPB, consagrados por trabalhos impecáveis ao longo de suas carreiras, estão livres das vacas magras, não. Eles estão lá também (Lulu Santos, Ivete Sangallo, Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e muitos outros bambas) disputando o pão-nosso de cada dia com a maior modéstia possível.

 

            Resumo da ópera (se é que um caso desses pode ser resumido): como pensar de maneira séria em direitos autorais num cenário desses? Pior: levantou-se há pouco tempo – pelo ECAD, o órgão que contempla essa discussão musicófola – a questão de se cobrar direitos até de pessoas que possuam uma juxebox no seu estabelecimento comercial. Onde já se viu isso! Aí já é demais. Definitivamente, casos como o do CD Trovador Solitário (a tal fita cassete da matéria acima), reforçam ainda mais a minha já suspeita posição sobre a indústria fonográfica: os grandes astros nos deixaram e agora querem nos cobrar preços abusivos, muitas vezes, por quem não tem o menor cacoete de talento. Uma afronta! Critica-se a pirataria (e realmente ela é um mal avassalador, pois fico imaginando o quanto deve ser difícil manter-se no mercado tendo uma sombra nebulosa dessas pairando constantemente sobre os ombros), mas o que se faz de concreto pela revitalização da MPB e, olhando de forma mais abrangente, pela música mundial?

 

            Paro minha escrita por algumas horas, sento para assistir a um programa do Jô que gravei há alguns meses e nunca havia assistido até então – e que curiosamente traz como convidado o diretor da gravadora Trama, João Marcelo Bôscoli – e, ao final da entrevista, lembro (lembrar é maneira de dizer, pois muitos dos artistas que citarei a seguir não são da minha época) do que a música já teve para nos oferecer: The Beatles, The Mamas and The Papas, Led Zeppelin, The Who, Nina Simone, Edith Piaf, Creedence Clearwater Revival, Cazuza, Gonzaguinha, Raul Seixas, Tom Jobim, Tim Maia, Billy Holliday, meu Deus, quanta gente! Se eu não parar agora essa coluna vira um livro. E, no entanto, vejam o que chamam de sucesso hoje: Mc Créu, Britney Spears, Tati quebra-barraco… Chega! Meus ouvidos não agüentam e tenho medo de, como Bethoven, ficar surdo no auge de minha existência. Finda essa elucubração, pergunto-lhes: dá pra pensar em discutir a indústria fonográfica? Especificamente, essa indústria de hoje?

 

 

Foto: http://www.piralaize.blogger.com.br/image-dub1.jpg

 

 

Nome impróprio

julho 26, 2008

 

Se eles pulverizassem a cultura cinematográfica, esse tipo de coisa não aconteceria mais: o caso Murilo Salles.

 

            Sentado em frente ao meu computador e desfrutando das maravilhas que o You Tube pode oferecer – entre um escândalo filmado e um vídeo pornográfico editado, é lógico -, recebo das mãos de minha irmã dois recortes de jornal sobre um tema que me é muito querido: a indústria cinematográfica. No primeiro, um longo desabafo do cineasta Murilo Salles, que acusa as grandes redes de cinema de esnobarem o seu último filme, Nome Próprio, bem como outras produções nacionais ditas de pouco apelo popular. Utilizando-se muito bem do exemplo hollywoodiano Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, que custou a bagatela de 150 milhões de dólares, fora obviamente a campanha agressiva de marketing em todo o mundo, o diretor aponta acusadoramente seu dedo em direção às redes de exibição de maior projeção no país, deixando claro em seu texto o quanto esses empresários privilegiam em 99,9% dos casos as produções norte-americanas em detrimento do cinema produzido em nossas terras (e cabe aqui uma ressalva, pois o cinema brasileiro não se trata da única vítima desse preconceito). Já o segundo artigo traz uma réplica ao desabafo de Salles onde o empresário da sala de cinema Ponto Cine, localizada no bairro de Guadalupe, confessa aos leitores do jornal ter sido esnobado pelo cineasta, por sua sala de exibição se localizar num bairro de subúrbio (obs: o filme de Salles, atualmente, está sendo veiculado em duas salas da zona sul carioca).

 

            Terminada a leitura, fico meditando por alguns segundos (meditando e assistindo a um incrível videoclipe chamado Six Days, feito pelo diretor de cinema Wong Kar-Wai para o DJ Shadow), mas meus lábios, verdadeiras metralhadoras irrequietas, não conseguem abraçar o mutismo e preferem manifestar a sua modesta opinião: primeiro de tudo, as grandes redes de cinema exercem uma relação de poder com os espectadores. Isso é um fato. Elas impõem – pelo menos à maioria – o que assistir, onde assistir e em que formato assistir (3D, THX, legendado, dublado, não importa! Elas decidem, na maior parte dos casos, para você não ter que ficar esquentando a cabeça). Conseqüência: nem todo mundo gosta disso, incluindo nesse patamar o gentil colunista que vos escreve. Só para se ter uma idéia da minha insatisfação, somente esse ano tive de assistir dois dos melhores filmes da safra americana em DVD por conta dessa máfia distribuidora que determina, além do preço, o lugar dito “adequado” para que o público curta os filmes. As películas em questão são Na Natureza Selvagem, de Sean Penn e Não Estou Lá, de Todd Haynes (esse último, sendo colocado em locais de exibição de impossível acesso para mim, mesmo tendo sido lançado na época do show do cantor Bob Dylan – personagem principal da produção – em uma casa de shows carioca).

 

            Insulto! Não há outra palavra que expresse melhor o meu sentimento. Em se tratando de cinema nacional, então, é melhor até que eu me cale, pois sempre que me interesso por alguma produção em especial, ela só entra em cartaz em salas que beneficiam um público que dispõe de poder aquisitivo mais alto, o que é uma falta de vergonha (para não dizer de outra coisa). Até o presente momento, a única produção brasileira que eu vi em tela grande foi Meu Nome não é Johnny, de Mauro Lima. Quero muito ver Nome Próprio, até porque conheço o blog da autora que serve de personagem e base para o filme, bem como outras produções aguardadíssimas aqui em solo carioca, como Os Desafinados, de Walter Lima Júnior e Estômago, de Marcos Jorge, porém sinto dentro de mim, como uma dúvida pulsando, quase que a cruel certeza de que também terei de esperar para vê-los em versão vídeo. O que é uma terrível lástima!

 

            Como nem tudo são notícias amargas, há que se defender aqui nesse humilde espaço o grande amigo dos verdadeiros amantes da sétima arte: o bom e velho Festival de Cinema do Rio de Janeiro (que ocorre entre o final de setembro e o início de outubro), esse sim, programando de forma coerente o melhor do cinema mundial sem desrespeitar o seu público, que sempre aguarda ansioso pela mostra. Sem contar que muitas vezes essa opção acaba se tornando a única chance de conferir algumas produções que não retornam em circuito tempos depois. Outra falta de vergonha na cara!

 

            Resumindo o meu desabafo: concordo com Murilo Salles. O cinema de verdade está sendo negligenciado. Também concordo com o dono da sala de cinema Ponto Cine. Tem muito diretor que esnoba salas de subúrbio por querer ver seus filmes passados em kinoplex majestosos, de preferência na Barra da Tijuca (afinal, quem é que não gosta de lançar o seu filme com toda a pompa e glamour?). E termino essa coluna com um pedido: pelo amor de deus, respeitem o seu público, pois é na medida que ele não é respeitado que a crise da baixa venda de ingressos aumenta. E muito.

 

 

            Foto: http://www.adorocinema.com.br

 

 

 

 

           

Impasse!!!!

julho 22, 2008

 

 

 

Meia ou Inteira? Depende da carteira.

 

            Como é difícil ser jovem e estudante num país tão cheio de recalques e rancores quanto o Brasil! A cada dia que passa nos vemos tolhidos de nossos direitos e conquistas, como se as autoridades colocassem uma faca em nossas jugulares. Um dos exemplos mais antigos desse desrespeito é a questão das carteiras estudantis que garantem o direito à meia entrada em estabelecimentos culturais e de entretenimento. Pensam que todos aceitam o documento? Longe disso! Há quem desdenhe sequer a existência do benefício, tratando-o como desserviço à cultura. Cinemas, teatros, casas de show, circos, todos debatem sobre a legalidade da questão há bastante tempo e muitos reclamam do abuso da tarifa (os polêmicos 50%).

 

            Um grupo representativo das mais diversas classes artísticas contesta a taxa em demasia, dizendo que lutam apenas por suas sobrevivências trabalhistas. Será? Pedem para que haja uma redução no valor do desconto – uns falam em 30%, outros até em 15% -, acreditando com isso conseguirem manter as contas de seus espetáculos em dia. E, nesse sentido, os grupos teatrais são os mais agressivos na luta. No entanto, uma questão muito peculiar tem sido deixada de fora ao longo de toda essa batalha: o que pensam as platéias jovens sobre esse entrevero? O que será das salas de exibição caso continue essa batalha?

 

            O fato inegável é que os estudantes (ao lado das classes idosas, cabe aqui ressaltar) ainda são os maiores freqüentadores desse tipo de serviço em nosso país. Quem garante aos produtores culturais que com a redução do valor do desconto nas carteiras estudantis essa platéia não diminuirá? Que certeza tem eles na permanência do público jovem nas filas de cinema, teatro e outros estabelecimentos? Não podem eles optar pelo lançamento dos filmes em DVD, assistindo-os no conforto de suas casas, os shows musicais ao ar livre, gratuitos – uma prática que tem se tornado corrente, principalmente nas praias cariocas, de uns anos pra cá – e, pior ainda, na escolha definitiva pela pirataria, um mal que já causa estragos em demasia para esses mesmos produtores? Pensemos nessa questão.

 

            Os ingressos estão caros. E a grande verdade é que em muitos estabelecimentos culturais a carteira de estudante contribuiu e muito para esse aumento. Só que essa questão nunca é abordada no debate sobre a meia entrada para estudantes. Por que será? Outro ponto delicado a ser pesado na balança é a enorme quantidade de empresas privadas que produzem o discutido documento (como é o caso de algumas rádios brasileiras), quando tal benefício deveria ser de produção exclusiva das instituições de ensino. Há muito tempo me pego pensando porque o Ministério da Educação não elabora uma carteirinha única, comum a todos os estabelecimentos de ensino, sejam eles públicos ou privados. Já seria um bom começo e evitaria constantes discussões nas bilheterias. Mas como não sou detentor da verdade, passo a palavra às autoridades responsáveis pela contenda.

 

            Em suma, algo precisa ser mudado na lei ou na forma de execução da mesma. E urgente. Não dá mais para suportar o descaso de certas empresas que esnobam o benefício – que é um direito aprovado por lei -, sentindo-se menosprezadas, mas se esquecem que sem o documento o faturamento é bem menor. O que fazer? Como fazer? A que acordo chegar? Essa é a grande discussão.

 

 

         Foto: http://www.rondoniagora.com/web/ra/noticia

 

 

O Planeta pede socorro (e o que nós estamos fazendo?)

julho 18, 2008

 

O que estamos fazendo com o nosso planeta é um crime: a descrença a respeito das conseqüências do aquecimento global.

 

            Ontem fiquei exercitando a minha memória afetiva por, aproximadamente, umas duas horas, tentando lembrar onde foi que vi, li ou ouvi uma citação que dizia “há de chegar o dia em que nossos maiores inimigos serão criaturas incorpóreas. E nesse exato momento teremos vergonha de admitir o quanto era bom poder tocar em nossos adversários e encará-los frente a frente, como homens”. Pois é, meus caros leitores, a criatura incorpórea chegou mostrando suas garras devastadoras: chama-se aquecimento global. Eu não sei precisar com 100% de exatidão quando foi que ela deu as caras em nossa sociedade tão mais preocupada com modismos e celebridades. Só sei que ela ganhou ares de inimigo respeitável quando o ex-candidato a Presidência da República Al Gore (ou, se olharmos pelas entrelinhas da história política norte-americana recente e pelo filme Fahrenheit 11 de Setembro, de Michael Moore, o verdadeiro presidente dos EUA) proferiu àquela palestra que serviu de base para o documentário Uma Verdade Inconveniente. De lá pra cá os olhos da opinião pública mundial se arregalaram, manifestações foram feitas nas ruas, o Greenpeace – provavelmente o único real interessado desde o princípio do problema – reforçou ainda mais os seus alertas, e… E mais o quê? O que mudou, de fato? Refiro-me aqui às pessoas que podem realmente fazer a diferença? Em que elas se solidarizaram?

 

            Um amigo de infância, ativista comprometido com essa luta pela salvação do planeta há exatamente uma década, traz-me uma matéria publicada no Jornal O Globo que me aumenta ainda mais a desesperança: “Sem acordo para o clima: países do G-5 não aceitam meta de redução de CO2 proposta pelo G-8”. Em linhas gerais, a briga gira em torno do descontentamento de países emergentes como China e Índia em assumir a diminuição de suas emissões de gases do efeito estufa em até 50% (meta essa que deverá ser assumida até o ano de 2050). Eles alegam não ser justo que suas economias não possam crescer por causa de limites impostos às emissões. As nações mais poderosas – e aqui faço um pequeno intervalo, pois olho o quadro anexo na matéria e fico estarrecido ao ver como países de importância do primeiro mundo, como Holanda, Alemanha e Japão, poluem a terra de forma atroz e sem pensar um minuto sequer no meio ambiente – reforçam a atitude já bastante divulgada de não quererem se sacrificar sozinhas nessa questão. Resultado: nenhum. Ou, pelo menos, um breve hiato até que as eleições norte-americanas, o verdadeiro termômetro desse país em ebulição, estejam sacramentadas.

 

            Em minha modesta opinião, se é que ela vale de alguma coisa, tudo não passa da velha lengalenga “eu não quero perder dinheiro”. Fulano empurra a responsabilidade para Beltrano que empurra para Sicrano que empurra para… (É como o poema Quadrilha, de Mário Quintana, só que utilizando outro verbo: EUA odiava China que odiava Japão que odiava Índia que odiava… E ninguém chegava à conclusão nenhuma). É muito triste ter de presenciar um quadro desses, mesmo sabendo da importância de que as grandes corporações reduzam seu ritmo urgentemente, pois caso isso não aconteça o aumento da temperatura pode chegar a índices ainda mais catastróficos do que os já alarmantes números atuais. Lembro com imenso desprazer de uma matéria feita pela Revista Veja meses atrás sobre o derretimento das calotas polares na Antártida. Em imagens chocantes, o fotógrafo captara a situação caótica do continente, ainda mais feroz quando se via a comparação feita em computador entre o que era a região na década passada e nos dias atuais. Algo precisa ser feito, isso é fato. A questão é que ninguém quer o compromisso, pois envolve aquilo que se tornou o bem mais precioso da humanidade nos últimos tempos: o vil metal. Como mudar a cabeça de uma sociedade (trata-se de uma minoria, vá lá, mas é essa minoria que dita as regras) que há anos se acostumou com lucros fáceis e uma vida confortável oferecida pelo dinheiro, quando o que se oferece em troca não é um papel-moeda, mas apenas vida? Pois eu realmente não acredito que eles vejam toda essa situação por outro aspecto (se vissem, as coisas certamente não teriam chegado a esse ponto).

 

 

Foto: http://www.tordesilhas.net

 

 

 

 

 

 

 

 

  

Mulheres Fabricadas

julho 15, 2008

 

Uma roda de bar, um bate-papo descontraído e mulheres feitas para durar apenas uma noite: desmistificando o concurso de Miss Universo.

 

            Roda de bar (para ser mais preciso, roda de lanchonete porque eu não bebo). Tudo pode acontecer: desde briga de casal até duelo de faca com direito a bêbado sangrando. No entanto, volta e meia você é capaz de se deparar com um debate cultural e um assunto construtivo que renda pano pra manga. Era exatamente isso que estava acontecendo a mais ou menos uma hora quando uma amiga extrovertida – a qual prefiro ocultar o nome – toca no tema beleza feminina. Os homens, em desvantagem por estarem em menor número na mesa, ficam aturdidos por um minuto, sem reação ou mesmo vontade de se intrometer no tema que pode acabar se transformando numa armadilha delas para exaltar a falta de romantismo masculina. Porém, os chips do meu cérebro alucinado reagem a uma velocidade espantosa e grito: concurso de Miss Universo. Todo mundo volta-se para mim e eu, pálido, preciso encontrar uma saída rápida para a besteira que acabei de falar, não sei se por efeito do açaí que estou tomando ou pela minha mania eterna de pensar em voz alta. O resultado desse extenso monólogo vem, fragmentado, a seguir:

 

            Nunca foi um fã ardoroso de concursos de Miss Universo. E explico logo de cara o porquê: a impressão que eu tenho é a de que aquelas mulheres, no auge de suas perfeições realizadas à base de dietas constantes, muita plástica, botox e otras cositas mais, parecem ter sido fabricadas para durarem exatamente o tempo da cerimônia. E que, ao final de todo o espetáculo – marcado por aqueles momentos pitorescos que todo mundo já conhece: “Qual o melhor livro que você já leu na vida?” O Pequeno Príncipe, de Saint-Antoine de Exupéry, “O que você deseja para toda a humanidade?” A paz mundial, e etc, etc, e muitos etc mais – elas se teleportarão, como os saudosos Capitão Kirk e seu fiel ajudante Doutor Spock na antológica série de televisão Jornada nas Estrelas, indo parar numa outra galáxia repleta de comidas diet e academias de ginástica mega-ultra-hiper-power tecnológicas. E nós, reféns que ficamos dessas poucas horas de frenesi onde essas “ditas mulheres mais bonitas do mundo” (opinião da imprensa mundial e dos patrocinadores do evento, que fique bem claro!), esquecemos de tudo no dia seguinte. Parece que nada aconteceu!

 

            Por que falei tudo isso? Simples: criticamos o desfile – e acreditem: eu conheço muita gente que critica a cerimônia, mesmo não perdendo a chance de conferir um ano sequer – e, no entanto, qual o modelo de beleza mundial hoje? Gisele Bundchen? Paris Hilton? Mulheres tão magras, senão mais, do que as adoráveis misses? Por que será que a minha lista das cem mulheres mais sexy do mundo nunca foi igual à publicada nessas revistas e tablóides sensacionalistas? Será que eu sou cego e tenho vergonha de ir a um oculista assumir a minha deficiência? Será que é o mundo que anda caduco e se perdeu em meio a tantos falsos valores que, por não desejar mais ter todo esse trabalho de analisar a verdadeira beleza existente nas ruas, prefere empacotar o primeiro rabo de saias atraente que atravessa a rua em frente? E agora? Qual pergunta escolher? Pois até mesmo essa simples escolha parece sofrer deturpações, vide que tanta gente prefere comprar pronto a fazer.

 

            Terminada minha verborragia, esperando ser linchado por minhas colegas de mesa, que, pelo contrário, em certos momentos até concordam comigo, ouço o colega ao meu lado cutucar o meu ombro e dizer: “é a McCultura, meu caro!”. Pior que é isso mesmo. Ainda tento dizer mais algumas palavras – quem sabe de otimismo, dessa vez –, mas o garçom chega com a conta. Todos pagam a sua parte, a amizade continua, e se levantam. O resto do monólogo fica preso na garganta. Ah! Deixa pra lá. Depois eu termino esse papo. No final das contas, é só futilidade mesmo.

 

 

            Foto: http://www.stormvlad.net

 

 

 

 

 

     

                  

A Polícia que mata (pena que sejam as pessoas erradas)

julho 12, 2008

 

Eu não sei se temos polícia em nosso país, mas isso que exerce o cargo atualmente eu, definitivamente, não aprovo: a matança generalizada no Brasil.

 

            Patrícia Franco, Ramon Domingues, Daniel Duque, e agora, João Roberto Amorim: pessoas como eu, você, como seus filhos, netos, sobrinhos, parentes, amigos, vizinhos, enfim, pessoas comuns, que você encontra todos os dias trafegando nas ruas tranqüilamente, até que num istmo de segundo são arrancadas de cena como um número estatístico que é substituído repentinamente numa planilha de custos, de forma fria e sem explicação. Confesso a você que mais do que amargura e indignação após o desabafo do pai de família Paulo Roberto Soares, durante matéria exibida no jornal da Rede Record, em que acusava de forma ríspida, mas não menos contundente, a polícia do estado do Rio de Janeiro por conta do assassinato de seu filho de três anos durante uma perseguição policial no bairro da tijuca, senti-me impotente. Por ter de ouvir mais uma vez uma família destruída, por saber que mais uma vida que acabara de começar é interrompida de forma brutal e sem nexo, e, principalmente, por não poder dizer ou fazer nada que altere essa situação de terror que se impregnou no estado – e no Brasil, claro, pois a calamidade da segurança pública é de teor nacional – na última década e meia.

 

            Incrível a comodidade e a frieza dos órgãos públicos e das autoridades vigentes, tentando proteger a figura dos letais assassinos com demagogias tolas, tentando preservar uma corporação que há anos luta na corda bamba para limpar o estigma de ingovernabilidade que paira sobre suas cabeças. Aliás, falando em ingovernabilidade, é impressionante como já se transformou em clichê o uso de vocabulários rebuscados, especialistas em segurança dando suas opiniões acerca das tragédias e o pedido de desculpas, seja do secretário de segurança pública do estado, seja do Governador, seja do comandante da polícia militar, repletos de “sinto muito”, “foi um desastre”, “isso não pode mais continuar assim”. Observação: essa declaração dura, normalmente, o tempo da mídia se interessar numa outra matéria de forte apelo emocional, para, então, tudo cair no esquecimento. Pelo menos, até que uma nova vítima apareça.

 

            Conversando numa roda de bar com alguns amigos, chegamos, determinado momento, ao tema “filmes policiais”. Durante aproximadamente meia hora, entre produções como Traffic, Fogo conta Fogo, Seven: Os Sete Pecados Capitais, Zodíaco, O Silêncio dos Inocentes, entre tantas outras tramas cercadas de crimes hediondos, serial killers macabros, sociopatas elegantes trajando seus impecáveis ternos armanis, discutimos e tentamos chegar a um senso comum sobre qual fosse o papel moral das autoridades policias nessas histórias. E, na maioria dos casos, ficamos na dúvida: é papel da polícia hoje proteger o cidadão trabalhador ou convencionou-se acreditar nisso ao longo dos anos? Essa é a questão que me pergunta. E olha que estamos falando de cinema. Ficção. Um mundo distante dessa vida real e insana da qual fazemos parte mesmo não gostando das regras do jogo.

 

            Eu poderia desenvolver as minhas teorias aqui nesse texto (como fazem muito bem os tais especialistas que mencionou no segundo parágrafo), mas tenho senso de ridículo. Acho o cúmulo me aproveitar desse clima de caos urbano e social em que vivemos para vender um produto pré-fabricado que atenda às expectativas e esperanças da opinião pública, quando sei que o único objetivo dessas “soluções” reproduzidas na televisão e em outros meios de comunicação só serve como uma injeção para relaxar os músculos exaltados de uma sociedade elétrica e, ao mesmo tempo frágil, que se equilibra de forma cuidadosa para não sucumbir mediante a indústria do crime. Soluções? Não, meus caros amigos, não apontarei falsas soluções, pois não as conheço. Só me cabe o papel – como tantos outros cidadãos desse favelário nacional em que habitamos – de lamentar mais uma vez e aumentar o coro de multidões que há bastante tempo vem gritando em alto e bom som: quando é que tudo isso vai acabar?

 

 

Fonte: http://www.ultimosegundo.ig.com.br

 

 

 

 

 

            

Artistas ou semideuses (dá no mesmo)

julho 8, 2008

Capa do disco Back in the U.S

 

O artista é apenas um artista ou algo mais?

 

            Talvez pareça fanatismo demais o que será escrito nas próximas linhas. Não sei! Porém, tendo em vista que vejo tantas pessoas enlouquecerem por causa de pseudo-artistas os quais tenho até vergonha de pronunciar o nome nesse humilde blog, por que não posso também, vez por outra, citar os meus ídolos para fazer uma postagem simples? O caso é que estava eu, outro dia desses, assistindo no canal a cabo Free View ao concert film – mistura de documentário e show – Back in the U.S, do eterno beatle Paul McCartney, quando comecei a reparar de forma mais detalhada na reação da platéia que assistia às apresentações musicais do mega-astro e quão surpreso não fiquei ao atentar para o fascínio desmedido de uma multidão de crianças, jovens, adultos, idosos, mesclados aos grupos, gritando, uivando e delirando entre uma canção e outra.

 

               Let it be, Hey Jude, Sgt. Pepper’s, Yesterday, não importava a música, o delírio febril causado pelos acordes era suficiente para tirar as pessoas do sério e interagirem como uma alcatéia louca (sedenta, nesse caso, por Rock n’ roll). Terminado o show – praticamente uma hora e meia de frenesi elétrico e absoluto, fico estático sentado no sofá, tentando entender, de forma definitiva, do que se trata ser fã. O que move tantas pessoas a um mesmo ideal: cultuar um homem ou uma banda num palco? Até que ponto vale todo o sacrifício de viagens estafantes, muitas vezes a outros continentes, pelo simples prazer de acompanhar pro poucas horas o seu artista predileto? Será que vale realmente a pena?

 

            Movido dessa pergunta e bastante coragem, fui atrás de colegas meus, verdadeiros viajantes do rock e do showbiz, homens e mulheres que já atravessaram o país e o mundo de moto, de carro, de avião, mochila nas costas, dormindo em albergues e do lado de fora de estádios de futebol, numa maratona insana de 72 e às vezes (acreditem!) 120 horas de espera desumana, na expectativa da abertura das bilheterias, para aí então disputarem com unhas e dentes os tão idolatrados ingressos que lhe permitirão a dádiva de estarem frente a frente com seus heróis. Ufa!

 

            No último show dos Rolling Stones, na praia de Copacabana, tive a curiosidade de sair de carro com um primo – me desbancando da zona norte – só para sentir o clima da festa. E que clima! Multidões de motoqueiros, tatuados, mulheres de corpos esculturais, gays, lésbicas e afins, atravancavam-se em busca do melhor espaço, da visão privilegiada, da faixa de areia mais agradável, da posição mais próxima à ponte construída na orla que levaria os quatro dinossauros do rock da entrada do Hotel Copacabana Palace até o palco. Após perder a conta dos empurrões e encontrões que levamos, achei melhor voltar para casa e assistir ao grande show no bom e velho amigo telão de LCD. E, curiosamente, mesmo tendo estado lá, a impressão que se tinha pela televisão é que havia muito mais gente do que pessoalmente. Simplesmente fantástico. Não é à toa entrou para o livro Guinness dos recordes.

 

            Enfim: poderia passar horas, dias, anos, comentando a respeito da euforia que esses deuses da música causam nas pessoas (quem quiser ver amostras claras, vá ao Youtube e procure pelas apresentações no Woodstock e em Glastonbury e vocês entenderão bem melhor do que esse mísero artigo), mas a única resposta prática que me vem a mente nesse momento é a seguinte: o desejo de entender como eles conseguem ser desse jeito, para então poder tornar-se um deles. Pois somente essa justificativa é capaz de me fazer acreditar no poder dessas criaturas divinais e o quanto elas são capazes de incorporar o instinto humano de metamorfose.

 

    

            Foto: http://images-eu.amazon.com

 

 

Especulando sobre a possibilidade de arte em nossos dias

julho 3, 2008

Neil Labute

 

Como chamar de arte o que vemos hoje em dia?

 

            Leio no Jornal do Brasil, em matéria curta, de meia página, uma entrevista interessante com o dramaturgo e cineasta Neil Labute sobre sua peça em cartaz no Rio de Janeiro e seu processo criativo e fico, aturdido, diante de uma declaração – a qual leio e releio várias vezes para ter certeza de que são aquelas mesmas as palavras utilizadas – feita de forma definitiva e ácida: “Qualquer coisa hoje em dia é chamada de arte”. Desabafo do autor? Irritação diante de uma sociedade marcada pela falta de criatividade? Ainda não consigo formar uma opinião definitiva acerca do que li, entretanto, há que concordar num ponto: a arte anda (e muito!) mascarada.

 

 

 

            Costumo visitar freqüentemente exposições e sou um cinéfilo e teatrófilo de mão-cheia. E posso atestar de carteirinha a minha insatisfação corrente com o mercado artístico atual. Volta e meia percebo o privilégio que certos “artistas” recebem do Governo Federal, Estadual e Municipal e o espaço destinado a produtos culturais que em nada acrescentam na vida de quem procura melhorar seu repertório, enquanto que verdadeiros talentos são relegados a segundo plano ou acabam por disputarem de forma covarde espaços minúsculos e quase sem divulgação.

 

 

 

            O que é, portanto, arte? Uma maneira de ganhar dinheiro mais fácil do que as outras profissões? Um simples portifólio onde a valorização profissional é o que está em jogo? Uma formadora de opinião inserida em locais pré-definidos, freqüentados por uma classe x voltada aos interesses de quem dita as regras? E quem dita as regras? Pensando em todos esses aspectos, tem uma certa razão o nosso amigo Labute. Em uma de suas produções, Possessão, com os atores Aaron Eckhart e Gwyneth Paltrow, ele discute de forma inteligente até que ponto podem colecionadores e estudiosos literários se considerar donos de uma obra alheia, mostrando as práticas torpes desses indivíduos na busca pelos créditos por determinado achado histórico.

 

 

 

            E, se são capazes de fazer isso com o trabalho de outros, imagine, então, o que serão capazes de produzir por conta própria?  O caminho que estamos tomando – seja com platéia ou como produtor cultural e artístico – é uma estrada sinuosa, cheia de perigos, muito parecida com a rota 66 tão difundida em célebres romances policiais. O problema é que eles, em sua grande maioria criaturas acomodadas e viciadas em lucros fáceis, não têm a mesma predisposição dos motoqueiros vividos por Dennis Hopper e Peter Fonda no clássico da contracultura Easy Rider. É justamente aí que reside o problema. Até quando teremos de aturar esses profissionais que se apóiam na falta de senso crítico das platéias que, muitas vezes, saem de casa procurando apenas esquecer os problemas sociais em que estão metidos diariamente e vêem naquele divertimento barato uma terapia ou injeção que os faça deletar suas angústias?

 

 

 

            Quando tiver uma resposta conclusiva, retorno ao tema.

    

 

            Foto: www.jewishjournal.com

 

 

Por que ela exerce todo esse fascínio no público?

junho 30, 2008

Amy Winehouse

 

Amy Winehouse: um novo ídolo ou uma nova promessa de vida curta no ágil mercado da Billboard?

 

            “Ela é tudo que eu queria ser”, gritam algumas meninas que viajaram mais de 200 km só para assistir a nova musa dos palcos, Amy Winehouse, durante o recente Rock in Rio Lisboa. Nem mesmo o longo atraso, a voz afônica e o desleixo de sua aparência – a sensação que se tinha era a de estar diante de uma recém-internada numa clínica de desintoxicação – foram capazes de abater o público ensandecido que lotava a cidade do rock disposta a cultuá-la. E não foi a primeira vez, muito menos a mais digna de nota por se tratar de um evento de renome internacional. Nada disso! Essa é a rotina mesmo de Amy. Dá pra acreditar?

 

            A menina que espantou o mundo em 2003 com sua voz estonteante durante o lançamento do álbum Frank, recorde de vendas e críticas, deu lugar a um arremedo de criatura capaz das atitudes mais controversas e polêmicas da história musical recente. “Quando começou a tragédia?”, tentam entender os críticos da indústria fonográfica. Terá sido por conta do casamento com o amado da musa, Blake Fieldercivil, numa capela em Lãs Vegas? Ou trata-se apenas de mais um caso de soberba diante da fama como tantos ocorridos no passado, só que agora em cores mais psicodélicas? Ninguém sabe a resposta a nenhuma dessas perguntas. E mais: a esperar uma atitude do público que prestigia a cantora, ninguém quer realmente saber. Simplesmente não importa.

 

            O mundo da música que nos deu Elvis Presley, Os Beatles, Ray Charles, Led Zeppelin, entre tantas outras feras, hoje se rende a essa postura “não tô nem aí com a vida” de artistas como Winehouse. Ela chegou, inclusive, a pregar essa atitude em sua canção Rehab, como se ficar doidona fosse um passaporte de conduta para essa nova geração, marcada exclusivamente pelo fenômeno My Space e pelo programa American Idol que apresenta “artistas” e artistas às toneladas, numa velocidade que nossos próprios olhos não são capazes de dar conta.

 

            Após escrever tudo isso me veio à mente a seguinte reflexão: critica-se imensamente a qualidade e falta de criatividade da atual safra artística, pondo-a como uma das principais culpadas pela crise do mercado fonográfico. No entanto, essa mesma indústria, muitas vezes (não todas, é claro, pois sempre há boas exceções, como a fantástica inglesinha Joss Stone, sucesso recente em show no Vivo Rio), na figura de alguns empresários inescrupulosos cujo único interesse é manter as platéias enlouquecidas, lotando estádios e comprando CD’s e DVD’S, faz vista grossa e, em alguns casos, até apóia esse lado bad boy de determinados artistas que, quando chegam a autodestruição (como parecer querer a rebelde Amy, com suas sucessivas recaídas e crises), são relegados ao ostracismo para que outro(a), também rebelde por natureza, tome o seu lugar rapidamente.

 

            Portanto, não será esse – perdão, essa moça – um mal necessário para uma sociedade imersa em tantas dificuldades, cujo único motivo de prazer seja adorar uma artista que subverta de forma cínica e sedutora os costumes morais? Não precisaremos nós de outras Amy para preencher nossos vazios existenciais e tomar a coragem que nós mesmos não somos capazes de tomar: enfrentar esse mundo insano em que vivemos?

 

            É isso que eu penso sobre essa moça adorável.

 

   

            Foto: http://www.thelastminuteblog.com