Pequenas notas de rodapé

Desabafo + Ode ao Photoshop + Pedido de paciência

      

            Assim como Murilo Salles, que soltou o verbo numa coluna recente do Jornal O Globo sobre a distribuição dos filmes nacionais nas principais redes de cinema do país – em particular a sua recente produção Nome Próprio, vencedora de vários Kikitos em Gramado -, o não menos taxativo cineasta Walter Salles, produtor de obras raras como Central do Brasil, Diários de Motocicleta e o atualmente nas telas Linha de Passe, vencedor da Palma de Ouro em Cannes de Melhor atriz para Sandra Corvelone, soltou seus impropérios em curta entrevista cedida ao caderno B do Jornal do Brasil. Na matéria, efusiva, o cineasta dispara sua metralhadora intelectual afirmando em alto e bom som: “cinema não é sabão em pó ou sanduíche do McDonald’s. Trabalhamos com memória afetiva e não com simples mercadorias e bibelôs”. Grande Walter! Até que ponto – pergunto-me, enfastiado em meu sofá, enquanto leio o jornal – teremos de aturar um sistema cinematográfico hipócrita como o nosso? Até quando teremos de engolir produções caríssimas como Batman: Cavaleiro das Trevas, Speed Racer, O Procurado e tantos outros caça-níqueis internacionais tomarem nossas salas de assalto (e não me limito aqui aos multiplex da vida, não, a qualquer cinema um pouco mais difundido já basta), enquanto produções belíssimas como A Festa da Menina Morta, de Matheus Natchergaelle, o próprio filme de Salles (o Murilo, não o Walter) e muitas outras obras de expressão da nossa produção fílmica são relegadas a cinemas de pequeno porte, isso quando não são lançados somente em DVD após uma árdua espera dos cinéfilos. Vou até parar por aqui, senão vou falar um palavrão nesse humilde post que não tem culpa de toda essa calhordice.

            Cinema Nacional: Odeie-o ou deixe-o.

 

            (…)

 

            Um amigo fanático por bunda e seios polpudos corre em minha direção trazendo o exemplar do ensaio fotográfico de Carol Castro pela Playboy. Em seu rosto e atitude, ressoa um único comentário: maravilhosa! Pego a revista de suas mãos (para não dizer tomo!) e folheio por alguns minutos o trabalho fotográfico muito bem realizado e, ao final de minha “inspeção” (pois mais parece isso) falo sem titubear: Que beleza o Photoshop! Aturdido, ele me encara com olhos vermelhos de esgar e, logo, a crítica se pronuncia:

            “Qualé, Beto, tô te estranhando!”.

            Que mais poderia dizer? Vivemos a era da manipulação das imagens. Falsos aqueles que dizem de peito aberto “dessa água não beberei” quando fazem seus trabalhos de fotografia, seja para a faculdade, seja profissionalmente (e não necessariamente precisa ser um ensaio sensual. Nada disso! Uma matéria jornalística num bairro de subúrbio no domingo de manhã já basta para exercitar suas modificações digitais). Por andar à revelia de todos esses magos da imagem – definitivamente, já deu pra perceber que não compro a Playboy e quando vejo o ensaio é de graça, pela internet – e após ter lido recente matéria sobre o tema “Manipulando o Real” no caderno Olhar Digital do Jornal O Globo, percebe-se claramente em meu depoimento o descontentamento de minha notória pessoa por esse clima de second life que pairou sobre a sociedade contemporânea.

            Por não querer me estender sobre o assunto por considerá-lo vazio e totalmente sem graça (onde já se viu aplaudir mulheres transformadas por computador, quando no momento em que você cruza com essas musas pela cidade carioca, principalmente nas praias, elas decepcionam à primeira vista?), prefiro eximir-me de uma opinião definitiva e deixar o barco – aquele do Roberto Menescal à luz de vela e da Bossa – rolar. Minha avó (saudosa mulher de quem nunca me esqueço) dizia sempre que televisão engordava as pessoas. Se a TV as engorda de fato, não sei. Mas que o Photoshop mente, ah! Isso mente.

 

(…)

 

            Estou a duas semanas tentando assistir a peça O Trovador Solitário, baseada nas canções e no universo do compositor Renato Russo, ex-vocalista da nostálgica banda Legião Urbana. E ainda não consegui. Esse domingo tentarei novamente. E caso consiga realizar esse desejo (melhor chamá-lo saga, fica mais adequado), prometo compartilhar essa experiência por aqui. Portanto, é aguardar. De preferência, cruzando os dedos.  

 

 

Fotos:

http://www.carreirasolo.org/archives/imagens/renato%20russo.JPG

http://www.nndb.com/people/126/000088859/salles-crop.jpg

http://blogvecindad.com/imagenes/2007/03/photoshop.jpg

 

 

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3 Respostas to “Pequenas notas de rodapé”

  1. Wally Says:

    Eu costumo gostar desses tais filmes caça-niqueis (difícil, mas estes que você citou, por exemplo, gosto) mas é muito injusto eles tomarem mesmo por assalto todas as salas. Deveriam ter, em todos os cinemas, um setor cult ou alternativo para que obras independentes e nacionais possam chegar à todos. Mesmo que sejam em salas menores pífias, ao menos teríamos a oportunidade de assisti-los.

    Ciao!

    E ViVA MJ!

  2. O Cara da Locadora Says:

    Primeiro obrigado pela visita…

    Mas eu também gosto dos caças-níqueis mas não me impede de gostar dos mais cults. Coloco na sua lista de irritações o recente “Encarnação do Demônio”, do Mojica, que está sendo posto de lado pelos cinemas brasileiros.

    Sobre o photoshop, não sei se estou errado, mas li recentemente que dos recentes ensaios o da Carol Castro não precisou de photoshop, nem o dela nem o de outra que eu me esqueci quem era…

    Infelizmente, teatro aqui no ES é muito pouco visto, normalmente só vem comédias de figurões globais…

    No mais, é isso, abraços…

  3. Ramon Says:

    Roberto… realmente esse processo de criar bons filmes nacionais exige um amadurecimento da população. Blockbuster sempre serão os xodós do grande público.

    Abs!

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