Parem as rotativas (ou melhor: o trânsito!)

 Esburacado Rio de Janeiro Novo

 

            Lembro-me até hoje da experiência de ter lido Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Um mundo futurista – para não dizer outra coisa, pois sabemos exatamente quais foram as reais intenções do autor com a obra – onde seres humanos eram manipulados em seus elementos mais básicos e sequer tinham o direito a se emocionar. Um espetáculo narrativo! Mas, voltando ao planeta terra, aos dias atuais (que nada têm – longe disso! – aquele clima psicodélico à la Jetsons com suas naves espaciais e teletransportadores) e, especificamente, a nossa querida cidade maravilhosa, fiquei extremamente grato pelas declarações dadas pelo coordenador da Central única de Favelas, o antropólogo Celso Athayde, à coluna O Rio da Gente, sobre a crise do transporte público e do direito de ir-e-vir: definitivamente, o Rio de Janeiro transformou-se num imenso congestionamento rodoviário.

 

 

 

            Apesar de ser pequeno o espaço reservado no modesto artigo, o entrevistado pauta de forma bastante coerente os dilemas que a população carioca sofre (e não cabe aqui fazer nenhum tipo de apologia ao cenário fluminense como injustiçado, pois sei de antemão que essa realidade caótica também é sofrida na mesma proporção por moradores de outros estados). Principalmente em se tratando do cidadão das classes menos abastadas, que todo dia sai de casa para trabalhar e enfrenta o mesmo tormento: engarrafamentos homéricos nos principais pontos da cidade, com direito a palavrões a toda esquina e trocas de ofensa proferidas entre motoristas estressados que só pensam em seu próprio umbigo e não respeitam o trânsito, o comércio ilegal e desonroso de vans que tumultuam ainda mais as ruas, estacionam onde querem, põem a vida dos passageiros em risco gratuitamente e, ainda por cima, fingem-se de injustiçados pedindo melhorias para sua classe, o aumento abusivo na frota de veículos de passeio (afinal, quem é que não quer ter o seu carrinho? Faz um consórcio, meu filho, é tão baratinho!) que congestiona as principais estradas – já destruídas pela falta de manutenção – e causa tantas tragédias por conta de maus motoristas, levianos, que só estão interessados no bel-prazer que o seu automóvel pode lhes oferecer, famílias de renda baixíssima que vêem praticamente todo o salário mensal ser gasto em passagens de ônibus e trem (um acinte!), transporte ineficiente e insuficiente transitando pelas rodovias e regulamentação nunca realizada no setor. Enfim, um caos.

 

 

 

            Giro o dial do rádio e Gilberto Gil canta Aquele abraço justamente no trecho em que sua voz pronuncia a frase “O Rio de Janeiro continua sendo…”. Sendo o quê? Essa torre de babel urbana onde pobres coitados lutam para preservar os seus empregos? (pois pensam que os empregadores querem saber de atraso? Que nada! Falta no cartão de ponto ou então “pode passar nos Recursos Humanos, por favor”). E na hora da volta? Uma cidade às escuras, reduto do crime, da inadimplência, da falta de ética, da polícia que mata pra depois fazer as perguntas, das poucas conduções circulando, já que as companhias de transporte público reduzem seus carros durante certo horário para preservar seu rico patrimônio da ação de vândalos, deixando a esmo inocentes trabalhadores cujo único desejo é voltar para suas casas e familiares. Pelo amor de Deus! Que cidade é essa? Que país é esse, Renato Russo? Alguns leitores já devem estar pensando no clichê: de quem é a culpa? Vou mais além, caros amigos, e reformulo a questão: quem vai assumir a culpa? E, por falta de voluntários, eu mesmo respondo: ninguém. Enquanto não está acontecendo nada disso com o Sr. Prefeito ou o Sr. Governador do estado está tudo muito bem. “É só uma crise”, eles irão dizer à imprensa, no final das contas.

 

 

 

            Sei que estou exagerando no tom, mas não peço desculpas, não. Simplesmente cansei desse Rio de Janeiro, assim como meu compatriota Celso Athayde. Cansei de olhar a cidade outrora maravilhosa, das canções de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, do alto da varanda de minha casa, reler as páginas do livro Cidade Partida, do sempre sábio Zuenir Ventura e ver, com tristeza, a mesma cidade, a mesma cena, o mesmo desleixo. Um lugar depauperado por um covil de aproveitadores. E como hoje acordei com o pé esquerdo e estava a fim de um desabafo, achei pertinente o tema proposto pela coluna jornalística do jornal O Globo, para extravasar meus sentimentos. Simplesmente, meus caros, não dá mais!

 

 

 

 

Foto:http://www.saojudasnu.blogger.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

       

 

           

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Uma resposta to “Parem as rotativas (ou melhor: o trânsito!)”

  1. Wally Says:

    A coisa está, literalmente, um CAOS. A diferença é que não temos um Coringa maléficamente divertido para deixar tudo mais maligno e surreal.

    E Roberto, pode contar com minha ajuda. Seria uma honra poder te ajudar no seu trabalho. Só diga o que é preciso e farei o possível. Abraço!

    Ciao!

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