Archive for agosto \28\UTC 2008

É Show? É debate? É tudo!

agosto 28, 2008

 

Caetano X Lobão: uma discussão à antiga.

            Extra! Extra! Caetano Veloso vai falar (e quando ele fala, acreditem, vem chumbo grosso por aí). A última do poeta marginal foi durante a apresentação do show Obra em Progresso, no Vivo Rio, um espetáculo que vem “se construindo de forma polêmica e aos poucos”, de acordo com  os pensamentos e idéias do notório baiano. A vítima da vez de sua metralhadora verbal foi o roqueiro e agitador cultural Lobão, que volta e meia dispara suas flechas nada suaves em seus convidados no programa MTV Debate (um encontro que tem dado muito pano pra manga por conta das constantes discussões que vem acontecendo entre membros dos mais diversos setores da sociedade). Lobão, paulista engajado nos últimos anos de vida, deflagrou seus impropérios abertamente em edição recente do Jornal do Brasil onde acatava a cidade maravilhosa pelo acúmulo de violência sofrida nos últimos anos. Moral da história: forneceu munição ao sempre irreverente compositor que, insatisfeitíssimo com as declarações nada amistosas do roqueiro, decidiu se autoproclamar um direito de resposta muito divertido, alegrando a platéia num breve intervalo do show.

            Primeiramente: quem é Lobão, morador de uma das cidades mais violentas da América Latina, quiçá do mundo, para ofender e agredir a cidade do Rio de Janeiro de tal maneira? Será que ele nunca se tocou da barbárie e das constantes altercações sangrentas que acontecem no solo paulistano repetidamente? Será ele o único cidadão brasileiro que não crê na situação caótica que vem assombrando a sociedade brasileira nas últimas décadas? Estará ele louco ou mal informado? Ainda por cima fornece material vasto para que um dos maiores debatedores de nosso país o ataque de forma contundente e sem piedade. Que vexame, Lobão!

            Por que escrevo nesse blog esse pueril texto, meus caros leitores? Pois me veio à mente o nostálgico tempo da geração Paissandu, dos filmes seguidos de debates entusiásticos com mentes brilhantes que fizeram a história desse país (uma história, definitivamente, muito mais bonita e dignificante do que a dos dias atuais). Escrevo esse post para mostrar a minha indignação diante de uma sociedade que, ao invés de usar sua cultura para criar novas histórias, novos discursos, gerando com isso, novos talentos, prefere perder seu tempo em discussões alucinadas que não têm nenhum outro fundamento senão o puro marketing de seus agressores (pois, acreditem, sempre vi ambos, tanto Caetano quanto Lobão, como marqueteiros de plantão, que aguardam o momento adequado para destilarem seus venenos).

            Lástima? Sou contra debates? Longe disso! Quando bem estruturados, são ricos em informações e podem render grandes espetáculos – como aliás, aconteceu com muitas apresentações teatrais na época da ditadura brasileira – e projetos sociais. No entanto, quando se trata de bate-boca cujo único intuito é vender a imagem de determinada pessoa e o que ela pensa sobre determinados aspectos sociais, prefiro eximir-me da presença (seja in loco ou espectadora televisiva) e, por vezes, da opinião, tendo em vista serem as discussões sempre as mesmas, repetitivas, desgastantes, não acrescentando em nada a sociedade em geral.

            P.S: artigo pedido por vários leitores desse blog (nem sempre deixando seus comentários, por quererem manter suas identidades/codinomes incólumes) que estiveram presentes no show, acompanharam de perto a leitura da matéria jornalística feita pelo ex-tropicalista e riram muito com as tiradas sarcásticas muito bem construídas pelo cantor e debatedor cultural;

 

            Foto: http://leafandlime.hobix.com/pic/caetano_veloso.jpg

 

 

 

 

  

 

 

Vai dizer que você nunca teve um amigo asssim?

agosto 22, 2008

 

Os Nerds: A Nova Mania Mundial

 

 

            Aquele rapaz todo arrumadinho, que não parece normal à primeira vista, cabelo repartido, óculos fundo-de-garrafa, introspectivo, que quando se aproxima para participar de qualquer roda de bate-papo ou mesmo dar sua opinião (mesmo que passageira) só pensa em estudos, equações matemáticas, teorias físicas, que volta e meia estraga a festa ou balada, atrapalha a reunião da turma de faculdade que não se encontrava há mais de 10 anos, é chato, não bebe, não fuma, não f…Nem sai de cima. Em suma, o verdadeiro azarão. Vulgo: nerd. Quem é que já não teve um amigo assim? Eu mesmo, até hoje, tenho vários. Sempre solicitados nas horas mais fortuitas (leia-se: cola na prova da universidade, “paga essa conta no banco pra mim que eu detesto encarar fila?”, e outras emergências relâmpagos). Você sempre pensa que ele, um dia, vai cair no esquecimento e ninguém mais vai se lembrar sequer do nome. Achou mesmo? Fala sério! Eles estão mais na moda do que nunca. Na TV, na internet, na literatura, no cinema, na sala de aula, como mascote do time de futebol, basquete, vôlei de alguma universidade norte-americana, em algum lugar ele chama a atenção. E quanto ao cabelo, as roupas, a postura, se comparados aos pioneiros do gênero…Quanta diferença! Até personal stylist eles têm agora.

 

 

 

 

            É…Os tempos não são mais os mesmos para esses notórios envergonhados que, no passado, eram motivo de gargalhada e deboche. Não tem muito tempo eles foram tema do caderno Megazine, do Jornal O Globo, e com toda pompa a que suas novas facetas têm direito. Hoje, podem ser divididos em verdadeiras tribos (o nerd HQ, o nerd tecnológico, o nerd fã de RPG, e etc, etc, muitos etc mais…) chegando a formar um movimento que já virou febre na web: o movimento orgulho nerd, feito por e para pessoas que assumem sem vergonha alguma que são nerds sim, e daí? E com direito a dia próprio e tudo (para quem não conhece a fatídica data trata-se de 25 de maio e já existe desde 2006). A questão que me deixou mais apreensivo bem como os produtores do caderno jornalístico foi: como definir hoje o que é um nerd, se eles não adotam mais os estereótipos do passado? Para entender essas novas tendências assimiladas pelos novos modelos desse grupo tão vasto, Deive Pazos criou o site jovem nerd (1) que recebe a incrível façanha de 20 mil acessos por dia e atesta de forma absoluta: “nerd é aquele que tem interesse em saber além, que sempre vai a fundo em qualquer questão”. Não está satisfeito ainda? Assista aos nerdcasts, podcasts que reproduzem bate-papos entre nerds e que são o sonho de qualquer fã do gênero.

 

 

 

 

            Já sei! Você deve estar pensando: e esses caras não se reúnem em nenhuma espécie de reunião anual, congresso, como fazem os fanáticos por filmes e séries de TV? Claro que sim, meus caros. O evento preferido deles é a Comic-Con, a feira anual de quadrinhos que acontece na Califórnia e dita os rumos futuros da indústria cultural norte-americana (entenda-se: graphic novels e sétima arte). E as listas? Como se esquecer delas nesses tempos globais de estrelismos concomitantemente renováveis? Logo nós, mortais do século XXI que, como o personagem do ator John Cusack no filme Alta Fidelidade, de Stephen Frears, baseado no romance homônimo do escritor inglês Nick Hornby, fazemos de tudo por elas (e por vezes para fazer parte de algumas!). Pensou que eu ia esquecer da lista dos nerds mais famosos da atualidade, aqueles que todos gostariam de ser ou almejam parecer com (pelo menos em suas contas bancárias) em algum momento de suas vidas? Pois aqui estão: Bill Gates, George Lucas, Steven Spielberg, Lany Page, J. J. Abrams, Quentin Tarantino, Sam Raimi, Moby, Kevin Smith, aquela rapaziada clássica da película A Vingança dos Nerds e muitos outros, porque a lista é enorme e o meu drive não comporta tanta gente. O comediante Paulo Caruso, nerd assumido, fica possesso com aquelas pessoas que não aceitam sua nerdice ou seus potenciais nérdicos e alfineta: “o pior nerd é aquele que não admite”.

 

 

 

 

            Outro ponto que me chamou muita atenção no artigo foram as classificações setorizadas dentro desse gigantesco universo: além dos nerds clássicos, existem os geeks (aqueles fanáticos por linguagem de computação e suas múltiplas vertentes: games, softwares, orkut, MSN, etc) e os já famosos CDF (criaturas inteligentíssimas que sempre têm seus cadernos solicitados ou mesmo confiscados nas escolas onde estudam). Na televisão, nos últimos tempos, eles têm ganhado papéis de importância em séries cômicas. Vide programas como Geek, no Universal Channel, The Big Bang Theory, no Warner Channel e o engraçadíssimo As Gostosas e os Geeks, do canal Multishow (e tem quem diga que eles não dão sorte com mulheres!). Já no cinema os recentes personagens Andy Stitzer (Steve Carell em O Virgem de 40 anos), Harold Crick (Will Ferrell em Mais Estranho que a Ficção) e a dupla Randall Graves e Dante Hicks (os dois imbecilóides da produção cinematográfica O Balconista, de Kevin Smith) alicerçaram a figura do nerd a um patamar nunca antes visto na história do audiovisual. E olha que o tímido Benjamim Braddock (Dustin Hoffman em A Primeira Noite de um Homem) bem que tentou! Quando o assunto é moda – pois, acreditem, essas pessoas também ditam modismos – o segredo é usar itens em liquidação nas lojas para criar um visual original, nunca visto nas ruas.

 

 

 

 

            Com tanta irreverência, tanto fascínio, e tanta gente tentando entender a mente dessa tribo, não me surpreenderei se amanhã acordar e descobrir que também sou um nerd (lembra aquela cena de A Metamorfose, de Franz Kafka, quando George Samsa acorda como um enorme inseto? Uma situação semelhante). Provavelmente, talvez eu já seja um. Eu ando lendo, vendo e ouvindo tanta coisa nos últimos anos que já não tenho mais tanta certeza da minha condição de normalidade perante o mundo. Também, o que é normal atualmente?

 

 

 

Links:

 

(1): http://www.jovemnerd.com.br

Foto: http://mob.rice.edu/sections/sa/album/images/Nerds.jpg

 

 

 

 

                  

           

Parem as rotativas (ou melhor: o trânsito!)

agosto 14, 2008

 Esburacado Rio de Janeiro Novo

 

            Lembro-me até hoje da experiência de ter lido Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Um mundo futurista – para não dizer outra coisa, pois sabemos exatamente quais foram as reais intenções do autor com a obra – onde seres humanos eram manipulados em seus elementos mais básicos e sequer tinham o direito a se emocionar. Um espetáculo narrativo! Mas, voltando ao planeta terra, aos dias atuais (que nada têm – longe disso! – aquele clima psicodélico à la Jetsons com suas naves espaciais e teletransportadores) e, especificamente, a nossa querida cidade maravilhosa, fiquei extremamente grato pelas declarações dadas pelo coordenador da Central única de Favelas, o antropólogo Celso Athayde, à coluna O Rio da Gente, sobre a crise do transporte público e do direito de ir-e-vir: definitivamente, o Rio de Janeiro transformou-se num imenso congestionamento rodoviário.

 

 

 

            Apesar de ser pequeno o espaço reservado no modesto artigo, o entrevistado pauta de forma bastante coerente os dilemas que a população carioca sofre (e não cabe aqui fazer nenhum tipo de apologia ao cenário fluminense como injustiçado, pois sei de antemão que essa realidade caótica também é sofrida na mesma proporção por moradores de outros estados). Principalmente em se tratando do cidadão das classes menos abastadas, que todo dia sai de casa para trabalhar e enfrenta o mesmo tormento: engarrafamentos homéricos nos principais pontos da cidade, com direito a palavrões a toda esquina e trocas de ofensa proferidas entre motoristas estressados que só pensam em seu próprio umbigo e não respeitam o trânsito, o comércio ilegal e desonroso de vans que tumultuam ainda mais as ruas, estacionam onde querem, põem a vida dos passageiros em risco gratuitamente e, ainda por cima, fingem-se de injustiçados pedindo melhorias para sua classe, o aumento abusivo na frota de veículos de passeio (afinal, quem é que não quer ter o seu carrinho? Faz um consórcio, meu filho, é tão baratinho!) que congestiona as principais estradas – já destruídas pela falta de manutenção – e causa tantas tragédias por conta de maus motoristas, levianos, que só estão interessados no bel-prazer que o seu automóvel pode lhes oferecer, famílias de renda baixíssima que vêem praticamente todo o salário mensal ser gasto em passagens de ônibus e trem (um acinte!), transporte ineficiente e insuficiente transitando pelas rodovias e regulamentação nunca realizada no setor. Enfim, um caos.

 

 

 

            Giro o dial do rádio e Gilberto Gil canta Aquele abraço justamente no trecho em que sua voz pronuncia a frase “O Rio de Janeiro continua sendo…”. Sendo o quê? Essa torre de babel urbana onde pobres coitados lutam para preservar os seus empregos? (pois pensam que os empregadores querem saber de atraso? Que nada! Falta no cartão de ponto ou então “pode passar nos Recursos Humanos, por favor”). E na hora da volta? Uma cidade às escuras, reduto do crime, da inadimplência, da falta de ética, da polícia que mata pra depois fazer as perguntas, das poucas conduções circulando, já que as companhias de transporte público reduzem seus carros durante certo horário para preservar seu rico patrimônio da ação de vândalos, deixando a esmo inocentes trabalhadores cujo único desejo é voltar para suas casas e familiares. Pelo amor de Deus! Que cidade é essa? Que país é esse, Renato Russo? Alguns leitores já devem estar pensando no clichê: de quem é a culpa? Vou mais além, caros amigos, e reformulo a questão: quem vai assumir a culpa? E, por falta de voluntários, eu mesmo respondo: ninguém. Enquanto não está acontecendo nada disso com o Sr. Prefeito ou o Sr. Governador do estado está tudo muito bem. “É só uma crise”, eles irão dizer à imprensa, no final das contas.

 

 

 

            Sei que estou exagerando no tom, mas não peço desculpas, não. Simplesmente cansei desse Rio de Janeiro, assim como meu compatriota Celso Athayde. Cansei de olhar a cidade outrora maravilhosa, das canções de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, do alto da varanda de minha casa, reler as páginas do livro Cidade Partida, do sempre sábio Zuenir Ventura e ver, com tristeza, a mesma cidade, a mesma cena, o mesmo desleixo. Um lugar depauperado por um covil de aproveitadores. E como hoje acordei com o pé esquerdo e estava a fim de um desabafo, achei pertinente o tema proposto pela coluna jornalística do jornal O Globo, para extravasar meus sentimentos. Simplesmente, meus caros, não dá mais!

 

 

 

 

Foto:http://www.saojudasnu.blogger.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

       

 

           

Estamos entupindo a internet

agosto 8, 2008

 

Será que dá pra desconectar só um pouquinho, enquanto eu dou uma olhadinha no meu e-mail? – Os avanços (e incômodos) da internet.

 

            No princípio era o verbo. E ele foi sendo subdividido com o passar dos tempos, reescrito, narrado de mil e uma maneiras diferentes. O homem, criatura efêmera nunca satisfeita em sua totalidade, decidiu criar novas formas – mais cômodas e fáceis, obviamente – de realizar as suas comunicações. E veio o rádio, amigo das donas de casa, a televisão, outrora chamada de caixa mágica, o telégrafo sem fio, a máquina de escrever manual e, logo a seguir, a elétrica (não necessariamente nessa ordem, é claro!) e, finalmente, o computador. Inicialmente imenso (alguém aí se lembra de já ter visto um Mainframe? Aquelas salas gigantescas que tomavam um andar inteiro nos prédios das megacorporações?). Ainda insatisfeito com o rumo que essas novas tecnologias vinham tomando, o homem, só pra se mostrar, o encolheu de tamanho e vem encolhendo cada dia mais. A conseqüência disso foram os notebooks, laptops, palmtops e outros hardwares. Mas a grande sacada, realmente, foi mesmo a internet, aquele antigo código militar que, rearranjado por técnicos de computação experientes, foi capaz de reduzir as fronteiras existentes entre nações e nós, míseras criaturas carentes de atenção e comodidade. Da internet discada – aquela que você espera, espera, espera…E das duas uma: ou continua esperando até que as graças do senhor permitam a sua conexão ou desiste – chegamos a tão sonhada banda larga, ao velox, ao wi-fi e outras siglas e nomes cibernéticos que eu, particularmente, prefiro não entrar em detalhes e parar por aqui, pois sempre me confundo com todos esses jargões.

 

 

 

            Porém, de acordo com a matéria publicada em distinto jornal carioca de apelo popular, intitulada “A internet está ficando entupida”, o homem, esse ser irrequieto, mais uma vez terá motivos para se queixar e se mostrar insatisfeito. Com o aumento da penetração da banda larga no país, internautas estão ficando cada vez mais mal-acostumados e querem usufruir sem limite de tempo os recursos mais avançados e as delícias que a web é capaz de oferecer. Resultado: a rede mundial de computadores está ficando congestionada (o que significa, para os mais pobres de raciocínio, mais lenta). Especialistas do ramo atestam categoricamente que o atual modelo de cobrança por banda larga está com os dias contados, pois será sumariamente impossível desentupir todo esse tráfego criado por milhões de usuários sedentos pelas imagens fascinantes dos vídeos megalomaníacos do youtube, pelos trailers em primeira mão das produções cinematográficas hollywoodianas mais recentes – Batman: O Cavaleiro das Trevas e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal foram uma febre em termos de acesso! -, os downloads de grandes arquivos textuais e musicais, a facilidade de assistir a filmes e shows em formato steaming e, o pior de todos, a venda de conteúdo HDTV usando uma estrutura não-paga (o que acarreta crime, pelo menos na visão de alguns gigantes da indústria do entretenimento).

 

 

 

            A evolução do problema, mostrada num gráfico muito bem produzido pelo jornal, é realmente alarmante: somente nos últimos 15 anos o tráfego na internet via P2P cresceu em 70%, enquanto na web o acréscimo foi de 25%. Em minha modesta opinião, pois não sou consultor de informática muito menos especialista nessa área, tudo isso pode ser reduzido a uma simples palavra: modismo. O brasileiro, outrora um bravo (como diria nos áureos tempos literários o saudoso João Guimarães Rosa) é hoje, antes de qualquer outra qualidade, um cidadão preocupado 24 horas por dia com status e tendências de mercado. E qual é a tendência do mercado no que tange à internet? A banda larga, ora. Você não precisa necessariamente ser portador de um microcomputador em sua residência. Nada disso! Tenho colegas que freqüentam cybers e lan houses que, basta que cruzem a porta de entrada do estabelecimento, vão logo perguntando ao atendente: “Tem banda larga? Tem velox?”. Se não tiver, ih! Dão as costas e saem sem pensar duas vezes, estejam cobrando o preço que estiverem, promocional ou não.

 

 

 

            Em suma, ter o conforto de um acesso rápido e poder realizar tudo o que você quer na hora que deseja do que jeito que você sonhou, mais do que um vício tornou-se uma necessidade de primeira grandeza. Se não por capricho, para que não se fique para trás nas rodas de conversa e poder dizer, quando num bar ou numa festa com amigos, que o seu computador dispõe das mais avançadas tecnologias, pois tem a tão amada banda larga. Porque quando não tem, você fica mal com a rapaziada, chamam a sua máquina de carroça e aí já viu: é um Deus nos acuda, espalham pra geral e você, coitado, fica mal na fita. E você não quer ficar mal na fita, quer?

 

 

Foto: http://www.amherst.edu

 

 

 

 

          

 

    

Vai um orgasmo aí?

agosto 2, 2008

 

O Dia mundial de uma coisa muito prazerosa…Mas que nem todo mundo sabe o que é.

 

            Uma das histórias da antiguidade clássica que sempre me surpreendeu foi a vida de Calígula, o ditador que escandalizou o império romano. Banhado até a raiz dos cabelos num mundo de sangue e devassidão, sempre me relembro com estupor a sua decisão de nomear seu cavalo Bucéfalo como ministro. Decisão essa baseada no fato de ser a criatura eqüina – palavras dele! – o animal mais bem dotado que já havia visto até então. E mais: houve um momento de sua gestão à frente dos romanos em que confessou publicamente que somente o belo garanhão seria capaz de fazê-lo atingir o mais alto grau de satisfação no que se referem às relações carnais: o orgasmo. Por que estou me referindo a esse caso inusitado? Primeiro, por volta e meia ter me deixado intrigar por essa sensação humana (atingida por poucos ao longo da vida, é fato!) de atingir o mais alto degrau de excitação. E segundo, por ler numa coluna bastante inovadora uma interessante matéria sobre o dia mundial do orgasmo. Isso mesmo, meus amigos! Acreditem se quiser… Uma série de eventos envolvendo o tema comemora a data no Rio de Janeiro – segundo relato na coluna Gente Boa, do sempre competente e hilário Joaquim Ferreira dos Santos – e praticantes das mais diferentes profissões e áreas de atuação deixam registradas suas opiniões, umas picantes em seu conteúdo narrativo, outras polêmicas por seu desabafo arrojado e corajoso.

 

 

            As opiniões (que mais parecem confissões, pela maneira intimista como são dadas) divergem a todo o momento, criando uma espécie de contracampo existencial entre pessoas que defendem o ato (ou o fingimento do) e aqueles que o recriminam, por considerá-lo subversivo e amoral. O psicanalista Luiz Alberto Py, mente aberta que só, defende a decisão de alguns fingirem a consumação do ato e o status de prazer proporcionado pelo clímax por acreditar “não ser de todo condenável (…) mentir faz parte da vida; não é pecado”. Decisão essa sumariamente condenada pela psiquiatra e sexóloga Rita Jardim que, em duas palavras, resume esse tipo de situação: “acho triste”. Há aqueles mais ousados que confessam a prática constante com obtenção total do prazer atingido – como é o caso da Daspu Jane Eloy, que arrebata: “quando gozo me sinto mulher, o corpo fica mole, dá soninho, vontade de dormir agarradinho” – bem como, por outro lado, os que nunca conseguiram alcançar o dito cujo, como assume a atriz Lady Francisco que, em cinco anos de casamento e dois filhos depois, nunca sentiu nada sequer parecido.

 

 

 

            E os que ganham a vida incentivando a prática ou pesquisando sobre ela? Acha que esqueceram deles? Não mesmo! Estão lá também. A stripper Alice Gouveia é a rainha da Festa do Swinge no Hotel Ibiza, no Centro da cidade carioca, com direito a “hora do apagão” e tudo (para quem não conhece o termo, é quando as luzes se apagam em pleno salão e rolam mãos bobas pra tudo quanto é lado). Já Regina Racco, professora, vê aumentar a procura por suas aulas de ginástica íntima entre as mulheres. Outra praticante voraz, Suzana Leal, dona de sexy clube, defende ferrenhamente a prática do pomparismo, por acreditar que “a técnica, além de fortalecer os músculos da vagina, faz com que o organismo produza hormônios que aumentam a libido”. E, finalmente, o meu preferido entre confidentes, o compositor Mu Che Babi, nostálgico pesquisador do pornotube, vira as noites caçando as expressões mais corriqueiras utilizadas na hora H, como por exemplo, o método à la flanelinha (“vai, vai, pra direita, vira pra esquerda, aí, desfaz, deixa solto, aê…ahhhh!!!!”) e as preferidas do mundo animal (cachorra, potranca, piranha, cadela e outros animais de baixo calão).

 

 

            Entendeu agora o porquê da minha menção no início desse artigo ao notório Calígula? Mais do que isso: lembrei-me do clássico filme homônimo dirigido pelo fotógrafo da Revista Playboy Bob Guccione e interpretado pelo ator Malcolm McDowell, na apoteose final de sua irregular carreira (pois ele nunca mais conseguiu um outro grande papel em toda a sua vida hollywoodiana). O quê? Querem saber a minha opinião sobre o orgasmo? Como opinar sobre algo que até hoje não atingi? É, meus caros leitores, esse pobre colunista que vos escreve – sem nenhuma vergonha de admitir – também aumenta o coro daqueles que não alcançaram a glória da exaltação sexual. Infelizmente. Será isso um crime? Diriam sábios autores do passado ser esse um bom sinal, acima de tudo. Pois, acreditam eles, é na idade madura que as grandes realizações se dão de forma duradoura e inesquecível. Enquanto aguardo solenemente a minha apoteose final, fico pensando encostado em minha poltrona se não na imponência de Bucéfalo, animal sortudo, pelo menos na imensa felicidade daqueles que diferente de mim atingiram o tão cobiçado patamar perante os deuses da orgia e do divertimento.

 

 

Foto: http://www.bencksclub.blogger.com.br/casal2.jpg