Nome impróprio

 

Se eles pulverizassem a cultura cinematográfica, esse tipo de coisa não aconteceria mais: o caso Murilo Salles.

 

            Sentado em frente ao meu computador e desfrutando das maravilhas que o You Tube pode oferecer – entre um escândalo filmado e um vídeo pornográfico editado, é lógico -, recebo das mãos de minha irmã dois recortes de jornal sobre um tema que me é muito querido: a indústria cinematográfica. No primeiro, um longo desabafo do cineasta Murilo Salles, que acusa as grandes redes de cinema de esnobarem o seu último filme, Nome Próprio, bem como outras produções nacionais ditas de pouco apelo popular. Utilizando-se muito bem do exemplo hollywoodiano Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, que custou a bagatela de 150 milhões de dólares, fora obviamente a campanha agressiva de marketing em todo o mundo, o diretor aponta acusadoramente seu dedo em direção às redes de exibição de maior projeção no país, deixando claro em seu texto o quanto esses empresários privilegiam em 99,9% dos casos as produções norte-americanas em detrimento do cinema produzido em nossas terras (e cabe aqui uma ressalva, pois o cinema brasileiro não se trata da única vítima desse preconceito). Já o segundo artigo traz uma réplica ao desabafo de Salles onde o empresário da sala de cinema Ponto Cine, localizada no bairro de Guadalupe, confessa aos leitores do jornal ter sido esnobado pelo cineasta, por sua sala de exibição se localizar num bairro de subúrbio (obs: o filme de Salles, atualmente, está sendo veiculado em duas salas da zona sul carioca).

 

            Terminada a leitura, fico meditando por alguns segundos (meditando e assistindo a um incrível videoclipe chamado Six Days, feito pelo diretor de cinema Wong Kar-Wai para o DJ Shadow), mas meus lábios, verdadeiras metralhadoras irrequietas, não conseguem abraçar o mutismo e preferem manifestar a sua modesta opinião: primeiro de tudo, as grandes redes de cinema exercem uma relação de poder com os espectadores. Isso é um fato. Elas impõem – pelo menos à maioria – o que assistir, onde assistir e em que formato assistir (3D, THX, legendado, dublado, não importa! Elas decidem, na maior parte dos casos, para você não ter que ficar esquentando a cabeça). Conseqüência: nem todo mundo gosta disso, incluindo nesse patamar o gentil colunista que vos escreve. Só para se ter uma idéia da minha insatisfação, somente esse ano tive de assistir dois dos melhores filmes da safra americana em DVD por conta dessa máfia distribuidora que determina, além do preço, o lugar dito “adequado” para que o público curta os filmes. As películas em questão são Na Natureza Selvagem, de Sean Penn e Não Estou Lá, de Todd Haynes (esse último, sendo colocado em locais de exibição de impossível acesso para mim, mesmo tendo sido lançado na época do show do cantor Bob Dylan – personagem principal da produção – em uma casa de shows carioca).

 

            Insulto! Não há outra palavra que expresse melhor o meu sentimento. Em se tratando de cinema nacional, então, é melhor até que eu me cale, pois sempre que me interesso por alguma produção em especial, ela só entra em cartaz em salas que beneficiam um público que dispõe de poder aquisitivo mais alto, o que é uma falta de vergonha (para não dizer de outra coisa). Até o presente momento, a única produção brasileira que eu vi em tela grande foi Meu Nome não é Johnny, de Mauro Lima. Quero muito ver Nome Próprio, até porque conheço o blog da autora que serve de personagem e base para o filme, bem como outras produções aguardadíssimas aqui em solo carioca, como Os Desafinados, de Walter Lima Júnior e Estômago, de Marcos Jorge, porém sinto dentro de mim, como uma dúvida pulsando, quase que a cruel certeza de que também terei de esperar para vê-los em versão vídeo. O que é uma terrível lástima!

 

            Como nem tudo são notícias amargas, há que se defender aqui nesse humilde espaço o grande amigo dos verdadeiros amantes da sétima arte: o bom e velho Festival de Cinema do Rio de Janeiro (que ocorre entre o final de setembro e o início de outubro), esse sim, programando de forma coerente o melhor do cinema mundial sem desrespeitar o seu público, que sempre aguarda ansioso pela mostra. Sem contar que muitas vezes essa opção acaba se tornando a única chance de conferir algumas produções que não retornam em circuito tempos depois. Outra falta de vergonha na cara!

 

            Resumindo o meu desabafo: concordo com Murilo Salles. O cinema de verdade está sendo negligenciado. Também concordo com o dono da sala de cinema Ponto Cine. Tem muito diretor que esnoba salas de subúrbio por querer ver seus filmes passados em kinoplex majestosos, de preferência na Barra da Tijuca (afinal, quem é que não gosta de lançar o seu filme com toda a pompa e glamour?). E termino essa coluna com um pedido: pelo amor de deus, respeitem o seu público, pois é na medida que ele não é respeitado que a crise da baixa venda de ingressos aumenta. E muito.

 

 

            Foto: http://www.adorocinema.com.br

 

 

 

 

           

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3 Respostas to “Nome impróprio”

  1. Breno G. Adegas Says:

    Engracado vc trazer isso a tona. Enquanto estive no Canada, junto com a lei da censura sobre a qual postei no meu blog, tinha um grande debate sobre isso. porque alem dessa lei estupida que quer censurar quais filmes devem ou nao ser financiados pela ajuda do governo (que eh basicamente de onde todos os filmes canadenses sao produzidos) as salas de cinema exercem esse mesmo poder e todos os filmes em exibicao acabam sendo hollywoodianos, sobrando os espacos indies pros canadenses. eh mt triste, concordo plenamente com vc. e ja li belas criticas a nome proprio, se eu achar em algum lugar pra ver, verei…

    see ya!!

  2. Wally Says:

    É tudo uma questão de capitalismo. Os cinemas vão priorizar o que da dinheiro. Infelizmente o público brasileiro não está mentalmente preparado para encarar belíssimos filmes como os de Penn e Haynes, então estes são limitados ou nem se quer lançados (meu caso). Aí somos obrigados a recorrer ao baixamento de filmes pela internet, o refúgio de apaixonados pelo cinema que não encontram legalmente nutrição. O mundo ta desmorando MESMO.

    Ciao!

  3. Gabriela Says:

    Claro que para a indústria cinematográfica o rentável é o filme que faz sua própria propaganda. Como não resistir ao Cavaleiro das Trevas em technicolor e outras coisinhas mais? O boca-a-boca de um filme como “Nome Próprio” (que também ainda não vi) ou mesmo uma ‘didática’ para que um filme como esse faça sucesso são utopias que não comovem a aparelhagem high-tech de um cinemark. Mas há a resistência, não?

    A propósito, excelente blog.

    (Ah, sim, e Nome Próprio está passando no Odeon também)

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