Mulheres Fabricadas

 

Uma roda de bar, um bate-papo descontraído e mulheres feitas para durar apenas uma noite: desmistificando o concurso de Miss Universo.

 

            Roda de bar (para ser mais preciso, roda de lanchonete porque eu não bebo). Tudo pode acontecer: desde briga de casal até duelo de faca com direito a bêbado sangrando. No entanto, volta e meia você é capaz de se deparar com um debate cultural e um assunto construtivo que renda pano pra manga. Era exatamente isso que estava acontecendo a mais ou menos uma hora quando uma amiga extrovertida – a qual prefiro ocultar o nome – toca no tema beleza feminina. Os homens, em desvantagem por estarem em menor número na mesa, ficam aturdidos por um minuto, sem reação ou mesmo vontade de se intrometer no tema que pode acabar se transformando numa armadilha delas para exaltar a falta de romantismo masculina. Porém, os chips do meu cérebro alucinado reagem a uma velocidade espantosa e grito: concurso de Miss Universo. Todo mundo volta-se para mim e eu, pálido, preciso encontrar uma saída rápida para a besteira que acabei de falar, não sei se por efeito do açaí que estou tomando ou pela minha mania eterna de pensar em voz alta. O resultado desse extenso monólogo vem, fragmentado, a seguir:

 

            Nunca foi um fã ardoroso de concursos de Miss Universo. E explico logo de cara o porquê: a impressão que eu tenho é a de que aquelas mulheres, no auge de suas perfeições realizadas à base de dietas constantes, muita plástica, botox e otras cositas mais, parecem ter sido fabricadas para durarem exatamente o tempo da cerimônia. E que, ao final de todo o espetáculo – marcado por aqueles momentos pitorescos que todo mundo já conhece: “Qual o melhor livro que você já leu na vida?” O Pequeno Príncipe, de Saint-Antoine de Exupéry, “O que você deseja para toda a humanidade?” A paz mundial, e etc, etc, e muitos etc mais – elas se teleportarão, como os saudosos Capitão Kirk e seu fiel ajudante Doutor Spock na antológica série de televisão Jornada nas Estrelas, indo parar numa outra galáxia repleta de comidas diet e academias de ginástica mega-ultra-hiper-power tecnológicas. E nós, reféns que ficamos dessas poucas horas de frenesi onde essas “ditas mulheres mais bonitas do mundo” (opinião da imprensa mundial e dos patrocinadores do evento, que fique bem claro!), esquecemos de tudo no dia seguinte. Parece que nada aconteceu!

 

            Por que falei tudo isso? Simples: criticamos o desfile – e acreditem: eu conheço muita gente que critica a cerimônia, mesmo não perdendo a chance de conferir um ano sequer – e, no entanto, qual o modelo de beleza mundial hoje? Gisele Bundchen? Paris Hilton? Mulheres tão magras, senão mais, do que as adoráveis misses? Por que será que a minha lista das cem mulheres mais sexy do mundo nunca foi igual à publicada nessas revistas e tablóides sensacionalistas? Será que eu sou cego e tenho vergonha de ir a um oculista assumir a minha deficiência? Será que é o mundo que anda caduco e se perdeu em meio a tantos falsos valores que, por não desejar mais ter todo esse trabalho de analisar a verdadeira beleza existente nas ruas, prefere empacotar o primeiro rabo de saias atraente que atravessa a rua em frente? E agora? Qual pergunta escolher? Pois até mesmo essa simples escolha parece sofrer deturpações, vide que tanta gente prefere comprar pronto a fazer.

 

            Terminada minha verborragia, esperando ser linchado por minhas colegas de mesa, que, pelo contrário, em certos momentos até concordam comigo, ouço o colega ao meu lado cutucar o meu ombro e dizer: “é a McCultura, meu caro!”. Pior que é isso mesmo. Ainda tento dizer mais algumas palavras – quem sabe de otimismo, dessa vez –, mas o garçom chega com a conta. Todos pagam a sua parte, a amizade continua, e se levantam. O resto do monólogo fica preso na garganta. Ah! Deixa pra lá. Depois eu termino esse papo. No final das contas, é só futilidade mesmo.

 

 

            Foto: http://www.stormvlad.net

 

 

 

 

 

     

                  

Anúncios

Uma resposta to “Mulheres Fabricadas”

  1. Wally Says:

    Me lembrei imediatamente de “Pequena Miss Sunshine”, um maravilhoso filme. Filosofia: “A vida toda é um grande concurso de beleza. Fodam-se concursos de beleza”. =D

    Ciao!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: