A Polícia que mata (pena que sejam as pessoas erradas)

 

Eu não sei se temos polícia em nosso país, mas isso que exerce o cargo atualmente eu, definitivamente, não aprovo: a matança generalizada no Brasil.

 

            Patrícia Franco, Ramon Domingues, Daniel Duque, e agora, João Roberto Amorim: pessoas como eu, você, como seus filhos, netos, sobrinhos, parentes, amigos, vizinhos, enfim, pessoas comuns, que você encontra todos os dias trafegando nas ruas tranqüilamente, até que num istmo de segundo são arrancadas de cena como um número estatístico que é substituído repentinamente numa planilha de custos, de forma fria e sem explicação. Confesso a você que mais do que amargura e indignação após o desabafo do pai de família Paulo Roberto Soares, durante matéria exibida no jornal da Rede Record, em que acusava de forma ríspida, mas não menos contundente, a polícia do estado do Rio de Janeiro por conta do assassinato de seu filho de três anos durante uma perseguição policial no bairro da tijuca, senti-me impotente. Por ter de ouvir mais uma vez uma família destruída, por saber que mais uma vida que acabara de começar é interrompida de forma brutal e sem nexo, e, principalmente, por não poder dizer ou fazer nada que altere essa situação de terror que se impregnou no estado – e no Brasil, claro, pois a calamidade da segurança pública é de teor nacional – na última década e meia.

 

            Incrível a comodidade e a frieza dos órgãos públicos e das autoridades vigentes, tentando proteger a figura dos letais assassinos com demagogias tolas, tentando preservar uma corporação que há anos luta na corda bamba para limpar o estigma de ingovernabilidade que paira sobre suas cabeças. Aliás, falando em ingovernabilidade, é impressionante como já se transformou em clichê o uso de vocabulários rebuscados, especialistas em segurança dando suas opiniões acerca das tragédias e o pedido de desculpas, seja do secretário de segurança pública do estado, seja do Governador, seja do comandante da polícia militar, repletos de “sinto muito”, “foi um desastre”, “isso não pode mais continuar assim”. Observação: essa declaração dura, normalmente, o tempo da mídia se interessar numa outra matéria de forte apelo emocional, para, então, tudo cair no esquecimento. Pelo menos, até que uma nova vítima apareça.

 

            Conversando numa roda de bar com alguns amigos, chegamos, determinado momento, ao tema “filmes policiais”. Durante aproximadamente meia hora, entre produções como Traffic, Fogo conta Fogo, Seven: Os Sete Pecados Capitais, Zodíaco, O Silêncio dos Inocentes, entre tantas outras tramas cercadas de crimes hediondos, serial killers macabros, sociopatas elegantes trajando seus impecáveis ternos armanis, discutimos e tentamos chegar a um senso comum sobre qual fosse o papel moral das autoridades policias nessas histórias. E, na maioria dos casos, ficamos na dúvida: é papel da polícia hoje proteger o cidadão trabalhador ou convencionou-se acreditar nisso ao longo dos anos? Essa é a questão que me pergunta. E olha que estamos falando de cinema. Ficção. Um mundo distante dessa vida real e insana da qual fazemos parte mesmo não gostando das regras do jogo.

 

            Eu poderia desenvolver as minhas teorias aqui nesse texto (como fazem muito bem os tais especialistas que mencionou no segundo parágrafo), mas tenho senso de ridículo. Acho o cúmulo me aproveitar desse clima de caos urbano e social em que vivemos para vender um produto pré-fabricado que atenda às expectativas e esperanças da opinião pública, quando sei que o único objetivo dessas “soluções” reproduzidas na televisão e em outros meios de comunicação só serve como uma injeção para relaxar os músculos exaltados de uma sociedade elétrica e, ao mesmo tempo frágil, que se equilibra de forma cuidadosa para não sucumbir mediante a indústria do crime. Soluções? Não, meus caros amigos, não apontarei falsas soluções, pois não as conheço. Só me cabe o papel – como tantos outros cidadãos desse favelário nacional em que habitamos – de lamentar mais uma vez e aumentar o coro de multidões que há bastante tempo vem gritando em alto e bom som: quando é que tudo isso vai acabar?

 

 

Fonte: http://www.ultimosegundo.ig.com.br

 

 

 

 

 

            

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2 Respostas to “A Polícia que mata (pena que sejam as pessoas erradas)”

  1. Wally Says:

    Lembro de um tempo onde a polícia era conhecida como os herói. Hoje se rebaixam ao nível de crimosos. Não só pela matança, mas sim, pela corrupção.

    Excelente texto!

    Ciao!

  2. Weiner Says:

    Mais uma excelente discussão a se levar adiante, parabéns! Estou indignado com a polícia brasileira, que quando não se corrompe por dinheiro, abusa de sua autoridade – e portanto mata sem motivo algum. Quero deixar uma prece em memória à João Roberto, o menino de 3 anos que foi brutalmente assassinado por homens despreparados e cruéis (que se intitulam policiais), e Ana Paula, a moça de 20 anos que foi morta na madrugada de domingo, por tiros depois de voltar de uma festa de formatura – e ser confundida com uma criminosa.
    A violência não pára, e eu fico imaginando o tamanho da dor das famílias, que enterraram seus sonhos junto com os corpos de seus filhos.

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