Especulando sobre a possibilidade de arte em nossos dias

Neil Labute

 

Como chamar de arte o que vemos hoje em dia?

 

            Leio no Jornal do Brasil, em matéria curta, de meia página, uma entrevista interessante com o dramaturgo e cineasta Neil Labute sobre sua peça em cartaz no Rio de Janeiro e seu processo criativo e fico, aturdido, diante de uma declaração – a qual leio e releio várias vezes para ter certeza de que são aquelas mesmas as palavras utilizadas – feita de forma definitiva e ácida: “Qualquer coisa hoje em dia é chamada de arte”. Desabafo do autor? Irritação diante de uma sociedade marcada pela falta de criatividade? Ainda não consigo formar uma opinião definitiva acerca do que li, entretanto, há que concordar num ponto: a arte anda (e muito!) mascarada.

 

 

 

            Costumo visitar freqüentemente exposições e sou um cinéfilo e teatrófilo de mão-cheia. E posso atestar de carteirinha a minha insatisfação corrente com o mercado artístico atual. Volta e meia percebo o privilégio que certos “artistas” recebem do Governo Federal, Estadual e Municipal e o espaço destinado a produtos culturais que em nada acrescentam na vida de quem procura melhorar seu repertório, enquanto que verdadeiros talentos são relegados a segundo plano ou acabam por disputarem de forma covarde espaços minúsculos e quase sem divulgação.

 

 

 

            O que é, portanto, arte? Uma maneira de ganhar dinheiro mais fácil do que as outras profissões? Um simples portifólio onde a valorização profissional é o que está em jogo? Uma formadora de opinião inserida em locais pré-definidos, freqüentados por uma classe x voltada aos interesses de quem dita as regras? E quem dita as regras? Pensando em todos esses aspectos, tem uma certa razão o nosso amigo Labute. Em uma de suas produções, Possessão, com os atores Aaron Eckhart e Gwyneth Paltrow, ele discute de forma inteligente até que ponto podem colecionadores e estudiosos literários se considerar donos de uma obra alheia, mostrando as práticas torpes desses indivíduos na busca pelos créditos por determinado achado histórico.

 

 

 

            E, se são capazes de fazer isso com o trabalho de outros, imagine, então, o que serão capazes de produzir por conta própria?  O caminho que estamos tomando – seja com platéia ou como produtor cultural e artístico – é uma estrada sinuosa, cheia de perigos, muito parecida com a rota 66 tão difundida em célebres romances policiais. O problema é que eles, em sua grande maioria criaturas acomodadas e viciadas em lucros fáceis, não têm a mesma predisposição dos motoqueiros vividos por Dennis Hopper e Peter Fonda no clássico da contracultura Easy Rider. É justamente aí que reside o problema. Até quando teremos de aturar esses profissionais que se apóiam na falta de senso crítico das platéias que, muitas vezes, saem de casa procurando apenas esquecer os problemas sociais em que estão metidos diariamente e vêem naquele divertimento barato uma terapia ou injeção que os faça deletar suas angústias?

 

 

 

            Quando tiver uma resposta conclusiva, retorno ao tema.

    

 

            Foto: www.jewishjournal.com

 

 

Anúncios

Uma resposta to “Especulando sobre a possibilidade de arte em nossos dias”

  1. Wally Says:

    Infelizmente o cinema brasileiro encontra uma barreira que é justamente essa: o público. Primeiramente, os filmes dirigidos como se fossem novelas, mini-séries ou programas cômicos são inúmeros e cansativos. Os filmes brasileiros realmente melhores surgem em produções mais independenetes, das quais o público não dão muita bola. Ou seja, é complicado. Não é como Hollywood, que é mais balanceado (mas ainda desequilibrado). Aqui é possível que chegue um tempo onde apenas filmes com maior apelo ganhem distribuição, e isso é uma pena.

    Ciao Roberto, vou te linkar! 😉

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: