
O Dia mundial de uma coisa muito prazerosa…Mas que nem todo mundo sabe o que é.
Uma das histórias da antiguidade clássica que sempre me surpreendeu foi a vida de Calígula, o ditador que escandalizou o império romano. Banhado até a raiz dos cabelos num mundo de sangue e devassidão, sempre me relembro com estupor a sua decisão de nomear seu cavalo Bucéfalo como ministro. Decisão essa baseada no fato de ser a criatura eqüina – palavras dele! – o animal mais bem dotado que já havia visto até então. E mais: houve um momento de sua gestão à frente dos romanos em que confessou publicamente que somente o belo garanhão seria capaz de fazê-lo atingir o mais alto grau de satisfação no que se referem às relações carnais: o orgasmo. Por que estou me referindo a esse caso inusitado? Primeiro, por volta e meia ter me deixado intrigar por essa sensação humana (atingida por poucos ao longo da vida, é fato!) de atingir o mais alto degrau de excitação. E segundo, por ler numa coluna bastante inovadora uma interessante matéria sobre o dia mundial do orgasmo. Isso mesmo, meus amigos! Acreditem se quiser… Uma série de eventos envolvendo o tema comemora a data no Rio de Janeiro – segundo relato na coluna Gente Boa, do sempre competente e hilário Joaquim Ferreira dos Santos – e praticantes das mais diferentes profissões e áreas de atuação deixam registradas suas opiniões, umas picantes em seu conteúdo narrativo, outras polêmicas por seu desabafo arrojado e corajoso.
As opiniões (que mais parecem confissões, pela maneira intimista como são dadas) divergem a todo o momento, criando uma espécie de contracampo existencial entre pessoas que defendem o ato (ou o fingimento do) e aqueles que o recriminam, por considerá-lo subversivo e amoral. O psicanalista Luiz Alberto Py, mente aberta que só, defende a decisão de alguns fingirem a consumação do ato e o status de prazer proporcionado pelo clímax por acreditar “não ser de todo condenável (…) mentir faz parte da vida; não é pecado”. Decisão essa sumariamente condenada pela psiquiatra e sexóloga Rita Jardim que, em duas palavras, resume esse tipo de situação: “acho triste”. Há aqueles mais ousados que confessam a prática constante com obtenção total do prazer atingido – como é o caso da Daspu Jane Eloy, que arrebata: “quando gozo me sinto mulher, o corpo fica mole, dá soninho, vontade de dormir agarradinho” – bem como, por outro lado, os que nunca conseguiram alcançar o dito cujo, como assume a atriz Lady Francisco que, em cinco anos de casamento e dois filhos depois, nunca sentiu nada sequer parecido.
E os que ganham a vida incentivando a prática ou pesquisando sobre ela? Acha que esqueceram deles? Não mesmo! Estão lá também. A stripper Alice Gouveia é a rainha da Festa do Swinge no Hotel Ibiza, no Centro da cidade carioca, com direito a “hora do apagão” e tudo (para quem não conhece o termo, é quando as luzes se apagam em pleno salão e rolam mãos bobas pra tudo quanto é lado). Já Regina Racco, professora, vê aumentar a procura por suas aulas de ginástica íntima entre as mulheres. Outra praticante voraz, Suzana Leal, dona de sexy clube, defende ferrenhamente a prática do pomparismo, por acreditar que “a técnica, além de fortalecer os músculos da vagina, faz com que o organismo produza hormônios que aumentam a libido”. E, finalmente, o meu preferido entre confidentes, o compositor Mu Che Babi, nostálgico pesquisador do pornotube, vira as noites caçando as expressões mais corriqueiras utilizadas na hora H, como por exemplo, o método à la flanelinha (“vai, vai, pra direita, vira pra esquerda, aí, desfaz, deixa solto, aê…ahhhh!!!!”) e as preferidas do mundo animal (cachorra, potranca, piranha, cadela e outros animais de baixo calão).
Entendeu agora o porquê da minha menção no início desse artigo ao notório Calígula? Mais do que isso: lembrei-me do clássico filme homônimo dirigido pelo fotógrafo da Revista Playboy Bob Guccione e interpretado pelo ator Malcolm McDowell, na apoteose final de sua irregular carreira (pois ele nunca mais conseguiu um outro grande papel em toda a sua vida hollywoodiana). O quê? Querem saber a minha opinião sobre o orgasmo? Como opinar sobre algo que até hoje não atingi? É, meus caros leitores, esse pobre colunista que vos escreve – sem nenhuma vergonha de admitir – também aumenta o coro daqueles que não alcançaram a glória da exaltação sexual. Infelizmente. Será isso um crime? Diriam sábios autores do passado ser esse um bom sinal, acima de tudo. Pois, acreditam eles, é na idade madura que as grandes realizações se dão de forma duradoura e inesquecível. Enquanto aguardo solenemente a minha apoteose final, fico pensando encostado em minha poltrona se não na imponência de Bucéfalo, animal sortudo, pelo menos na imensa felicidade daqueles que diferente de mim atingiram o tão cobiçado patamar perante os deuses da orgia e do divertimento.
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